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DeSaCeRtO

Histórias, estórias, verdades, ficções, autores, artistas, literatura e música. Diversidade sem tabus

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12 Mai, 2022

Pressa

Jorge Santos

Luiz_Barbosa_confeteiria-de-bolhao[1].jpg   Estava sentada à mesa do café. Pelos gestos e pela inquietação do seu rosto, parecia sozinha, mas não estava... não podia estar! Algo haveria de causar-lhe tanta perturbação.
  Os dedos finos e graciosos deambulavam entre a chávena vazia e o maço dos cigarros. Quanto ao olhar, parecia um sensor de movimentos, num tom azulado, varria o espaço entre a porta e a mesa.
  Ele veio!
  Beijaram-se apressadamente e sairam.
  Devido à pressa, esqueceu a caixa dos cigarros em cima da mesa.
  Um jovem que transportava, preso aos pulsos, o desemprego, deixou a sua mesa, logo atrás, pegou no tabaco que ela deixara e encaminhou-se para a porta. Assim que chegou à rua, quis tirar um cigarro. Não conseguiu. Um grito vindo do fundo da alma ecoou e quer os transeuntes quer os que estavam dentro do café dirigiram-se ao  jovem. Este largara o maço, empalidecera e tremia descontroladamente, encostado à vidraça da montra . O seu olhar era de pânico e focava-se naquela pequena embalagem que, agora, jazia no passeio; de vez em quando, apontava, mas não conseguia articular palavra.
  Uma dona de casa, nada desesperada, de meia-idade, encostou o seu carrinho das compras à parede e com o desembararço próprio de quem já viveu muito, pegou no maço, olhou o interior e disse com a calma natural das pessoas maduras:
  - Tem lá dentro um Futuro Hipotecado. Mas está morto. Este já não faz mal a ninguém...